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Morre Lito Sousa aos 59 anos

Ele havia sido diagnosticado com a doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), enfermidade neurodegenerativa rara e sem cura

O especialista em aviação e influenciador Lito Sousa morreu, aos 59 anos, em São Paulo, nesta quinta-feira (1°). Ele estavaem casa, sob cuidados paliativos, e havia sido diagnosticado com a doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), enfermidade neurodegenerativa rara e sem cura. A informação foi confirmada em publicação nas redes sociais.

“Um grande abraço e até o proximo voo. Foi uma honra ter viajado com você. Te amo. Sempre”, diz a legenda do post publicado pela esposa, Mila Seidl (veja abaixo). 

Quem foi Lito Sousa?

Joselito Geraldo de Sousa nasceu em Natal, no Rio Grande do Norte, em 25 de janeiro de 1967. Entrou na aviação aos 14 anos, por meio de um curso técnico da Força Aérea Brasileira (FAB), e construiu ali uma carreira de mais de 37 anos antes de o país saber quem ele era.

Foi mecânico de aeronaves e supervisor de segurança de voo em três companhias que marcaram o transporte aéreo brasileiro: a Varig, fundada em Porto Alegre e, por décadas, o maior símbolo da aviação nacional; a Transbrasil; e a norte-americana United Airlines, onde se aposentou como chefe internacional de manutenção de aeronaves.

Certificou-se no exterior em Fatores Humanos, disciplina que estuda como as decisões e limitações das pessoas afetam a segurança de um voo, e se tornou uma das principais referências do tema no país.

Canal Aviões e Músicas nasceu do medo dos outros

A virada veio de um público que ninguém no setor costumava atender: o passageiro que aperta o braço da poltrona durante a turbulência sem saber exatamente por quê.

Foi para essa pessoa que Lito criou o Aviões e Músicas, canal que reunia suas duas paixões e que chegou a mais de 3,7 milhões de inscritos, tornando-se o de maior audiência sobre aviação no YouTube.

A fórmula era simples e difícil de imitar: pegar um relatório técnico, um procedimento de manutenção ou a gravação de uma caixa-preta e traduzir tudo para a linguagem de quem nunca entrou em uma cabine.

Entre 2011 e 2021, conciliou o trabalho na aviação com a produção de vídeos. Largou o emprego quando percebeu que o número de seguidores já superava o da própria companhia em que trabalhava. Também se tornou piloto privado em 2021, quatro décadas depois de entrar em um hangar pela primeira vez.

A cada acidente aéreo no Brasil, o telefone dele tocava antes do de qualquer autoridade. Lito ocupou um espaço que o país não sabia que precisava: o de alguém capaz de explicar, sem alarmismo e sem tecnicismo, o que havia acontecido, enquanto as investigações oficiais ainda levariam meses.

Em torno do canal, montou uma operação. Criou a Lito Academy, escola que forma mecânicos, pilotos, comissários e engenheiros, e um programa dedicado a tratar o medo de voar, pelo qual afirmava ter ajudado mais de cinco mil pessoas. Escreveu o livro Onde Morrem os Aviões, sobre os limites de uma aeronave.

Diagnóstico e as últimas semanas

Os problemas de saúde vieram a público em julho de 2026, quando Lito revelou um diagnóstico de câncer de próstata, identificado em exames de rotina. No início de agosto, passou a sentir dormência no braço esquerdo. Os sintomas se agravaram durante uma viagem aos Estados Unidos, e ele antecipou o retorno ao Brasil.

A primeira suspeita foi de encefalite autoimune, uma inflamação do cérebro provocada pelo próprio sistema de defesa do organismo. Lito chegou a ser internado em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Após semanas de investigação médica, a equipe do Hospital Israelita Albert Einstein chegou ao diagnóstico de doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), uma enfermidade neurodegenerativa rara e de rápida progressão, para a qual não há tratamento capaz de reverter a doença.

O diagnóstico foi revelado em 21 de agosto pela esposa, Mila Seidl, em um vídeo publicado nas redes sociais. A notícia desencadeou uma mobilização de seguidores e da família em busca de alternativas experimentais para o tratamento. Nos dias seguintes, a família de Lito passou a procurar centros de pesquisa nos Estados Unidos e na Europa.

Lito gravou, em inglês, um apelo às instituições responsáveis por pesquisas experimentais contra a DCJ. Em 23 de agosto, já acamado e com perda parcial da visão e dos movimentos, apareceu em um vídeo publicado nas redes sociais e pediu que seu caso fosse avaliado com urgência. Até 24 de agosto, não havia confirmação de que Lito tivesse sido incluído em um estudo.

A campanha também chegou ao governo brasileiro, quando Mila pediu a intervenção do Itamaraty e do governo federal para tentar acelerar o acesso do marido a uma pesquisa experimental nos Estados Unidos.

O que é a doença de Creutzfeldt-Jakob

A doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) é uma enfermidade neurodegenerativa rara, sem cura e de evolução rápida. A velocidade de progressão é uma das principais características que a diferenciam de doenças como Alzheimer e Parkinson, que geralmente evoluem ao longo de anos. A DCJ, por outro lado, costuma avançar em poucos meses.

Como a doença se desenvolve

A DCJ está relacionada a uma proteína chamada príon, presente naturalmente no organismo. Em determinado momento, essa proteína passa a assumir uma forma anormal e funciona como um molde defeituoso:

  • entra em contato com uma proteína saudável
  • faz com que ela também adquira uma forma anormal
  • desencadeia uma reação em cadeia
  • espalha-se pelo cérebro e provoca a morte de neurônios

Com a progressão da doença, o tecido cerebral passa a apresentar pequenos vazios, em um aspecto que lembra uma esponja. É dessa característica que vem o nome da família de doenças à qual a DCJ pertence.

Quais são os sintomas

Os sintomas podem começar com alterações na memória e no raciocínio e evoluir rapidamente para:

  • perda de coordenação motora
  • dificuldade para caminhar
  • alterações na fala
  • perda de visão
  • abalos musculares involuntários

Na forma mais comum da doença, responsável por cerca de 85% dos casos, não há uma causa conhecida nem histórico familiar. Essa forma também não é transmitida pelo convívio cotidiano entre pessoas.

A DCJ não deve ser confundida com a variante da doença associada à chamada doença da vaca louca, relacionada ao consumo de carne contaminada. Essa variante nunca teve caso registrado no Brasil.

Existe tratamento?

Não existe medicamento aprovado contra a DCJ em nenhum país. O tratamento disponível é paliativo, com foco no controle dos sintomas e no conforto do paciente.

  • Incidência mundial: cerca de uma pessoa a cada milhão por ano
  • Brasil: entre 2005 e 2021, foram registradas 1.576 notificações de suspeita
  • Casos confirmados: 547, segundo o Ministério da Saúde

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