Um grupo de acadêmicos de Medicina da Fatec Ivaiporã caminha de jaleco branco e em silêncio pelo corredor do Hospital Regional. Está aprendendo a ouvir. Antes de exames ou diagnósticos a formação começa no diálogo.
É assim que a prática da Medicina é construída. No Hospital Regional, Instituto de Saúde Bom Jesus, Unidades Básicas de Saúde e no Centro de Saúde. Mantendo contato com o paciente. Desde os primeiros períodos, os acadêmicos deixam a sala de aula para enfrentar aquilo que livro algum ensina sozinho. Ou seja, a responsabilidade de cuidar.
No Hospital Regional, o aprendizado envolve raciocínio clínico estruturado. Sob orientação da médica intensivista Annika Paula Cecagno, responsável pela disciplina de Habilidades Médicas, os acadêmicos do 4º período são desafiados a investigar casos sem conhecer previamente o diagnóstico.
Raciocínio antes da resposta
Antes da chegada dos acadêmicos, a médica Annika Paula Cecagno conversa com os pacientes, solicita autorização e prepara o ambiente. Em duplas, os acadêmicos entram nos quartos, realizam a anamnese, conduzem o exame físico e constroem hipóteses. Depois, voltam à sala de discussão para revisar cada detalhe. “A ideia é que os acadêmicos desenvolvam o raciocínio clínico. Não é só descobrir o diagnóstico. É entender por que chegamos ao diagnóstico e por que descartamos outras possibilidades”, explicou a médica intensivista.
Internado para a realização de uma cirurgia de hérnia umbilical, Abel Castro respondeu às perguntas referentes ao processo de investigação do caso. “Os acadêmicos perguntaram bastante e levantaram o histórico certinho. Foi um atendimento humanizado”, contou o paciente que se recupera do procedimento.
No Instituto de Saúde Bom Jesus, a médica Fredericka Strickert, que passou a integrar o corpo docente da Fatec Ivaiporã, acompanha as práticas hospitalares e também assume a parte teórica na graduação. Clínica geral com pós-graduação em Pediatria e Saúde da Família, a médica conheceu a estrutura da Fatec. “Há uma estrutura que permite crescer. O que vejo é organização e potencial para formar grandes médicos”, afirmou Fredericka Strickert.
Os acadêmicos percebem o impacto da convivência. Patrícia Gomes, 4º período, contou que a prática tem ampliado a compreensão da teoria. “O que aprendemos nos primeiros períodos faz sentido quando atendemos o paciente. É um grande aprendizado”, disse.
Yasmine Paracat disse que decidiu cursar Medicina após ser atendida por uma dermatologista que marcou a vida dela pela postura acolhedora. “Foi uma virada de chave. Eu queria fazer a diferença na vida das pessoas. Por isso, escolhi Medicina”, confessou.
Nos consultórios da UBS São Luiz, o aprendizado tem outro ritmo. O foco não está na prescrição e sim na compreensão do funcionamento do Sistema Único de Saúde (SUS), dinâmica da atenção primária e do vínculo médico-paciente.
Atenção Primária
O médico generalista Gustavo Bertotti, que atua como médico da família e comunidade, acompanha acadêmicos do 3º período. “O principal objetivo é entender como funciona o Sistema Único de Saúde, a organização de uma Unidade Básica de Saúde e como se conduz uma consulta. Medicamento vem depois. Em 1º lugar é a conduta e o olhar”, disse Gustavo Bertotti.
Os acadêmicos Matheus Stipp (Manoel Ribas) e José Bueno de Camargo (Cruzmaltina) reforçaram que a estrutura da rede municipal de saúde oferece campo de prática diversificado. “Durante o ensino médio passei a visitar faculdades para conhecer os cursos e optei por Medicina na Fatec. Quanto à experiência na UBS é muito importante conhecer cada setor”, comentou Matheus Stipp. Segundo José Bueno de Camargo estudar Medicina é um sonho e tornar-se cardiologista é uma das possibilidades.
A enfermeira Juliane Santos participa do processo de acolhimento dos acadêmicos na UBS São Luiz. “Orientamos, organizamos e mostramos a realidade diária. É uma troca de experiências”, garantiu.
Vínculo
Ao acompanhar os estudantes na UBS São Luiz, a médica Thaís Ogawa reviveu a própria trajetória. “Sinto saudade desta fase. Lembro quando comecei a exercer a profissão”, contou. Para Thaís Ogawa, o contato com a UBS é o alicerce. “Nesta etapa, é fundamental entender como a rede pública opera para que os acadêmicos possam aprofundar o conhecimento técnico com a base humana formada”, defendeu.
Conforme a médica Anny Sant’Ana, que atende no Centro de Saúde, a presença dos acadêmicos no SUS faz diferença na formação. “Aprendem que humildade e respeito são essenciais. Às vezes, uma palavra muda o dia do paciente. Humanização não é detalhe. É cura! Por isso, é importante aprender na prática”, alertou Anny Sant’Ana.
Escolha
Na UBS Monte Castelo, a cena se repete. Jovens de jaleco dividem espaço com profissionais experientes e aprendem o ritmo da Atenção Básica em Saúde. Jaqueline Koga Daubermann, que reside em Faxinal, escolheu a Fatec Ivaiporã para cursar Medicina com o marido Alexandre Daubermann. “A estrutura da Fatec é muito boa. Os professores são muito capacitados – o que nos proporciona segurança no aprendizado’, afirmou. Sobre o futuro, prefere não antecipar escolhas. “Penso em algumas áreas. Mas quero passar pela maioria antes de decidir”, completou.
Nicole Maffei Mathias Stocco, que também reside em Faxinal, afirmou que a prática amplia a compreensão do SUS. “Aprendemos desde o funcionamento administrativo ao atendimento médico. Passamos por todas as áreas da UBS, o que é muito enriquecedor, e percebemos que a humanização faz parte do processo de aprendizagem na Medicina”, reconheceu.
Ismila Maria Cividini saiu de Marumbi para morar em Ivaiporã e seguir o sonho da Medicina. A adaptação exigiu coragem. “É um desafio sair de casa para realizar um sonho. Mas vale a pena. A Fatec superou minhas expectativas”, declarou Ismila Maria Cividini confessando que a população de Ivaiporã acolhe muito bem os acadêmicos.
Natural de Ivaiporã, Isabela Montoro citou a importância do estágio. “Iniciamos o curso adquirindo conhecimento nas UBS – o que faz total diferença na formação acadêmica”, resumiu.
Para o coordenador do curso, Bruno Maschio Neto, a Medicina precisa ser aprendida no contato com as pessoas. “O conhecimento técnico é indispensável. Mas precisa caminhar com ética, sensibilidade e compromisso. Por isso, o objetivo é formar médicos que entendam a realidade dos pacientes. Acredito que tranquiliza qualquer pai ou mãe saber que o filho não estuda apenas Medicina – aprende a ser médico”, concluiu o coordenador.
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